Natan sempre acompanhava seu filho nas sessões de quimioterapia. Na maioria das vezes ele dava uma cochilada entre uma sessão e outra, quando num dia em especial, seu filho, Rafa, lhe acordara.
"Pai?"- E Natan abriu lentamente os olhos quando percebeu estar sendo chamado. Sentou-se e envolveu Rafa com os braços.
" O que significa terminal? "- Perguntou Rafa, sendo imediatamente questionado por seu pai: " Onde você ouviu isso?" -"Dos médicos."-Respondeu o garoto. Natan sentiu-se desconfortável.
"Terminal é algo que está para terminar, filho. " -E Rafa sentou-se animado ao ouvir.
" Então, quer dizer que é algo bom, pai! Minhas dores vão acabar?"
" É o que parece, meu filho. " - Natan levava as mãos aos olhos e piscava como quem retirava um cisco.
" Que bom, pois eu não aguento mais sofrer. Nunca entendi porque eu não posso ser como os meninos da escola, brincando, correndo. Nunca entendi porque eu estou assim, sem meus cabelos. Lembra como a mamãe gostava dos meus cabelos?"
Natan não respondeu, apenas mergulhou dentro de si mesmo. Era como se o tempo tivesse parado. Lembrou-se da sua linda esposa, de quem Rafa herdara sua fibra capilar. Como um filme, alguns momentos passaram pela sua mente: momentos íntimos, vinhos, beijos, brigas, ciúmes, primeiro encontro, exames, consultas, câncer, quimioterapia, radioterapia, flores, mensagens, velório. Cerca de dois anos atrás, Natan havia passado por uma situação semelhante.
" Pai? Lembra como a mamãe gostava dos meus cabelos? " - Natan tornou a si, balançou a cabeça e respondeu ao garoto. " Lembro sim, filho. " Rafa sempre foi um garoto astuto e curioso, mas nesse dia ele tinha algumas perguntas especiais guardadas para o seu velho pai.
" Por que Deus fez isso comigo? "
" Ora, meu filho. Papai do céu não fez isso com você. "
" Mas você não sempre me disse que tudo acontece porque Ele quer? Lembra que Ele me deu minha bicicleta? Lembra que Ele te deu o novo emprego? Por que ele Ele fez isso comigo? "
" Ah, Rafa. Isso é tão complicado. Olha, meu filho. Algumas vezes Deus precisa de anjinhos com ele. "
" Mais anjinhos, pai? Sabe quantos anjinhos morrem por dia na África? Etiópia? "
" Onde você ouviu isso, Rafa? "
" No google, pai. "
" Ele já levou a mamãe. Você dizia que ela era ótima cuidando das coisas da casa. Será que ela já não o está ajudando o bastante? Por que ele não simplesmente me leva, ao invés de fazer eu ficar sofrendo tanto?"
Natan mergulhou outra vez dentro de si. Pediu a enfermeira para cuidar do Rafa e saiu da sala. Perambulou pelo corredor até avistar uma saída de emergência. Refugiou-se na penumbra daquela escadaria iluminada pelas luzes de emergência e mergulhou em si pela última vez: sentiu-se sozinho, abandonado, e dono das suas vontades. Sentiu-se livre como todo ser humano nasce, antes de ser aprisionado pelas correntes dogmáticas dos costumes sociais.
O pequeno Rafa morreu meses depois. Natan decidiu largar o emprego e mudar de cidade na tentativa de começar novamente. Aos poucos suas correntes enferrujaram e se enfraqueceram, e Natan pode experimentar um pouco da verdade que o cercara a vida inteira: ele era livre, e o destino nada mais era do que uma palavra. Entendeu que não existia lógica nos bons serem recompensados à altura das suas ações, e os maus serem punidos em vida, ou na vida eterna.
Natan, um homem abandonado pelo seu deus.
Nenhum comentário:
Postar um comentário