sábado, 29 de março de 2014

Mais uma noite no hospital.


Natan sempre acompanhava seu filho nas sessões de quimioterapia. Na maioria das vezes ele dava uma cochilada entre uma sessão e outra, quando num dia em especial, seu filho, Rafa, lhe acordara.

"Pai?"- E Natan abriu lentamente os olhos quando percebeu estar sendo chamado. Sentou-se e envolveu Rafa com os braços.

" O que significa terminal? "- Perguntou Rafa, sendo imediatamente questionado por seu pai: " Onde você ouviu isso?" -"Dos médicos."-Respondeu o garoto. Natan sentiu-se desconfortável.

"Terminal é algo que está para terminar, filho. " -E Rafa sentou-se animado ao ouvir.
" Então, quer dizer que é algo bom, pai! Minhas dores vão acabar?"
" É o que parece, meu filho. " - Natan levava as mãos aos olhos e piscava como quem retirava um cisco.
" Que bom, pois eu não aguento mais sofrer. Nunca entendi porque eu não posso ser como os meninos da escola, brincando, correndo. Nunca entendi porque eu estou assim, sem meus cabelos. Lembra como a mamãe gostava dos meus cabelos?"

Natan não respondeu, apenas mergulhou dentro de si mesmo. Era como se o tempo tivesse parado. Lembrou-se da sua linda esposa, de quem Rafa herdara sua fibra capilar. Como um filme, alguns momentos passaram pela sua mente: momentos íntimos, vinhos, beijos, brigas, ciúmes, primeiro encontro, exames, consultas, câncer, quimioterapia, radioterapia, flores, mensagens, velório. Cerca de dois anos atrás, Natan havia passado por uma situação semelhante.

" Pai? Lembra como a mamãe gostava dos meus cabelos? " - Natan tornou a si, balançou a cabeça e respondeu ao garoto. " Lembro sim, filho. " Rafa sempre foi um garoto astuto e curioso, mas nesse dia ele tinha algumas perguntas especiais guardadas para o seu velho pai.

" Por que Deus fez isso comigo? "
" Ora, meu filho. Papai do céu não fez isso com você. "
" Mas você não sempre me disse que tudo acontece porque Ele quer? Lembra que Ele me deu minha bicicleta? Lembra que Ele te deu o novo emprego? Por que ele Ele fez isso comigo? "
" Ah, Rafa. Isso é tão complicado. Olha, meu filho. Algumas vezes Deus precisa de anjinhos com ele. "
" Mais anjinhos, pai? Sabe quantos anjinhos morrem por dia na África? Etiópia? "
" Onde você ouviu isso, Rafa? "
" No google, pai. "
" Ele já levou a mamãe. Você dizia que ela era ótima cuidando das coisas da casa. Será que ela já não o está ajudando o bastante? Por que ele não simplesmente me leva, ao invés de fazer eu ficar sofrendo tanto?"

Natan mergulhou outra vez dentro de si. Pediu a enfermeira para cuidar do Rafa e saiu da sala. Perambulou pelo corredor até avistar uma saída de emergência. Refugiou-se na penumbra daquela escadaria iluminada pelas luzes de emergência e mergulhou em si pela última vez: sentiu-se sozinho, abandonado, e dono das suas vontades. Sentiu-se livre como todo ser humano nasce, antes de ser aprisionado pelas correntes dogmáticas dos costumes sociais. 

O pequeno Rafa morreu meses depois. Natan decidiu largar o emprego e mudar de cidade na tentativa de começar novamente. Aos poucos suas correntes enferrujaram e se enfraqueceram, e Natan pode experimentar um pouco da verdade que o cercara a vida inteira: ele era livre, e o destino nada mais era do que uma palavra. Entendeu que não existia lógica nos bons serem recompensados à altura das suas ações, e os maus serem punidos em vida, ou na vida eterna. 


Natan, um homem abandonado pelo seu deus.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Um devaneio e um jantar incompleto.




Chego em casa após cumprir as minhas obrigações diárias; estava faminto. Preparo um belo jantar, e "corro para o abraço". Quando meu telefone toca, e eu tenho um breve desentendimento. Este, pequeno porém suficiente para fazer com que o sabor da comida desaparecesse. Em seguida eu regurgitei, e o que parecia ser apenas mais um vômito me tomou por completo.

Observando meu reflexo água da privada, que estava misturada ao meu vômito, eu caí em pensamentos. É incrível, como eu sou tão fraco por ser dois, ao invés de um. Se eu fosse uma unidade sólida, talvez eu fosse mais real. Pois a minha verdade foi por água abaixo nesse momento, justo eu, que achei que terminaria aquele breve jantar. Qualquer outro animal terminaria o jantar, à final, não existem questionamentos, nem tão pouco, emotividade no mundo natural. E nós, homens, não somos mais naturais.

Somos tão completos e mergulhados nos nossos próprios sonhos, desejos e medo, que deixamos o tempo cortar a nossa personalidade, nos dividindo de nós mesmos. Israel, então, apenas observou Israel mergulhar no seu próprio vômito, e ser atingido por uma saraivada de pensamentos.

Nesse momento, terminando o texto, sinto-me dono da minha verdade novamente. Como se eu tivesse voltado a ser um só, antes de ser atingido pelo caos, pelo elemento surpresa, que randomizou meus planos.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

A vida é complicada.







          Mas é claro que a vida é complicada. A nossa habilidade especial é complicar as coisas. Acordar pela manhã e entregar-se aos prazeres que um dia simples pode nos oferecer não é mais suficiente. Somos os seres que vivem buscando uma maneira de simplificar o que nós complicamos.

          Olhe para os seres na natureza, nós já fomos livres como eles. Mas a consciência de que estávamos alguns passos de diferença intelectual para os outros habitantes do planeta, talvez tenha nos criado um medo, uma vontade de nos tornamos mais diferentes. Conseguimos pegar um plano verde e criar linhas imaginárias, separando o que era de quem, ou que nome deveria ser usado para que local, animal, ou objeto. E num certo momento, não precisávamos nem mesmo dos nossos pelos pois usávamos a pele de outras espécies como isolante térmico. Nos tornamos auto-suficientes. 

          E olhe onde estamos hoje? Cada vez mais longe dos nossos instintos naturais. As linhas que criamos não podem ser ultrapassadas, os nossos deuses são sempre os melhores e verdadeiros, nossos exércitos, nossos times de futebol e nossas mulheres. Nos tornamos tão auto-suficientes, que agora fabricamos nossos próprios remédios para hipertensão, por exemplo, que a propósito alguns jovens já usam aos quinze anos de idade. Olhe novamente para os seres na natureza, nós já fomos livres como eles. O mal que nos acometia era o que a natureza permitia. Hoje, nos tornamos o nosso próprio mal, e o mal alheio. 



quarta-feira, 10 de julho de 2013

Excluídos de uma sociedade: o produto que ela mesma criou.





          Um novo estereótipo de aceitação está se formando na cabeça das pessoas. Pouco à pouco, os gordinhos se sentem mais confortáveis para se socializar, pois os veículos de comunicação abriram as portas para uma "nova" ideia de beleza que está conseguindo quebrar um pouco os paradigmas de um preconceito antigo.

          As agências de modelos passaram a procurar manequins gordinhas, e muitas marcas que trabalham no seguimento da vaidade também abriram os olhos para uma parcela da sociedade que, até um tempo atrás, não tinha o devido suporte. Roupas casuais, de banho, e até acessórios sensuais agora são mais fáceis de se conseguir numa numeração alta. Atores e atrizes acima do peso também ganham espaço em papeis sensuais, não mais apenas como os coadjuvantes ou como os "engraçadinhos" do pedaço. 

          Parece que a sociedade finalmente percebeu que não se pode excluir uma parcela dela mesma, por fazer parte de um sistema que ela mesmo criou. Obesidade é o preço pago pela praticidade das coisas, desde a mudança do manual para o automático em todos os setores, até a exigência por um alto aproveitamento do tempo, o que faz muita gente apelar para um estilo de vida com práticas não muito saudáveis ao organismo humano.Sendo assim, um ser que comprovadamente evoluiu graças aos seus instintos de sobrevivência, hoje vive trancafiado num escritório a maior parte do seu dia. 

          O "homo" que precisava caçar para se alimentar, nos dias atuais apenas estende o braço e abre sua geladeira repleta de enlatados e congelados mergulhados no sódio. Ficando para muitos formadores de opinião, agora, a responsabilidade de explicar que ser gordo ou magro é muito diferente de saudável, e que, tal como os negros e os gays já fizeram, chegou a vez dos gordinhos lutarem contra o preconceito. À final, os excluídos de uma sociedade são os produtos que ela mesma criou.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

" Saudade ", a palavra que será mais usada pelos poetas do futuro.






            Em um futuro não muito distante, cessaremos as comemorações pelos avanços tecnológicos. Mesmo quando chegar o momento onde o direito pelo uso das células tronco será certo, mesmo quando o câncer não for mais problema pra ninguém, ainda sim a sociedade sentirá falta de algo, ela vai sentir saudade.

            Saudade talvez, de um tempo onde as coisas eram mais lentas. De enviar uma carta para alguém, de não saber o que o outro está fazendo naquele exato momento, de querer falar e ter que se conter ao próximo encontro. Saudade de sentir-se surpreso ao ver o novo corte de cabelo da esposa, sem ficar sabendo pela notícia nas fotos do facebook. Quantos artistas infantis não trocaram seus papeis de carbono e lápis de cor por um paint? A sensação do toque da massa de modelar foi trocada, aos poucos, pelo toque rígido do mouse, quem sabe até do touch pad? A sensação do papel agora se parece mais com o vidro, um vidro inteligente que entende os nossos toques.

            No fim das contas, nas idas e vindas, tentamos resgatar algumas coisas do passado. Por que precisamos comprar vitrolas e ouvir vinil, quando temos duas mil músicas num disco rígido? Eis a prova de que a saudade já está tomando conta dos textos e das histórias contadas pelos corações dos humanos do século XXI.

terça-feira, 2 de julho de 2013

O melhor está por vir.



         





         Sessenta anos eu vivi, e o que eu vi? O que eu fui? Quem eu fui? Seis décadas vivendo uma realidade que eu nem sei de fato se é real. O que eu ouvi, o que eu li nos livros de história, o que eu pesquisei nas bibliotecas da universidade, tudo isso pode não ter sido real, pode ter sido manipulado. Eu fui mais um número na contabilidade mensal das grandes corporações. Para a construtora do apartamento que eu comprei, eu sou nada mais do que o valor que paguei por ele. O mesmo serve para todo o resto do mercado.

         Por que eu preciso estudar e não posso ser um surfista? Quem foi que disse que eu preciso me trancar numa faculdade pra ter uma vida " digna " no futuro? O que você acha que é uma vida digna? De fato, eu não sou nada materialista, e não é nada digno pra mim viver sem entender a razão da minha existência. Ouço coisas como " cabelo bom " e " cabelo ruim ", e quem disse que algo é bom ou ruim, se somos a mesma raça com algumas variações étnicas? Quem disse que eu devo usar essa calça e não aquela em tal ocasião? 

         Sessenta anos eu vivi, e vi pouco menos do que quinze meras copas do mundo. Sessenta festas de são joão, sessenta dia dos namorados, sessenta míseros natais e eu acho que eu vivi o bastante. Eu nunca vi o mundo pelo lado de fora, nunca pousei na lua, nunca vi uma revolução de perto, não lutei nenhuma das guerras, não vi terremotos, maremotos, nem vulcões entrando em erupção. Nunca vi uma tsunami, e acho que já vi tudo que poderia ter visto. Tudo isso por viver da forma que todos querem viver, e não da forma que " um coração" que bate nos manda viver.

         Não venha com essa de me dizer que você é especial. Você é um lixo, e quando menos esperar vai se tornar um pouco de cinzas num pote, ou um pedaço de carne podre num caixão de madeira bonito. E não venha me dizer que você está satisfeito, pois eu não estou. Eu nunca estarei. Eterna será a minha frustração de saber que não sei o que está por vir.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

O limite vertical da vida.




          Dentre tantas fábulas eu encontrei o tempo, encontrei o cara, encontrei um deus que existe. Na névoa da dúvida eu me deparei com o limiar da minha vida, algo que inevitavelmente vai continuar fazendo com que eu me apresse, seja com o objetivo de cursar uma nova faculdade, seja para ver alguém que amo. Meu tempo não se esvai, ele me esvai, na medida em que eu me encontro um maremoto, e ele me fará acabar meus dias de forma serena, como um velho e misterioso lago.

          Eu ainda estou perdido, e tiro proveito disso. Acho que inevitavelmente todo mundo vai se perder um dia. Não tenha pressa para encontrar o caminho de novo, se perder faz parte da caminhada. Podemos nos perder sem querer, ou até tentando encontrar um atalho, um caminho mais rápido. Consiga madeira, faça uma fogueira, arme uma tenda e deite-se completamente perdido apreciando as estrelas e a sua existência. Aproveite cada segundo do seu desespero enquanto estiveres perdido.

          A final, nós sempre estaremos tentado mudar o rumo das nossas próprias vidas. Um apartamento na praia nunca será suficiente, nem  mesmo aqueles carro dos sonhos será. Lute com todas as forças que puder, e mais uma vez eu digo, que inevitavelmente você vai se perder, e encontrará um deus que vai colocar sinais e parênteses na sua equação. Ele vai ser o teu limiar, ele via ser a tua estrada e também a tua linha de chegada, o teu limite vertical da vida.